Intitulatio [dar-se a si próprio um título].

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Carta aberta ao meu afilhado [parte II]

Queria, mais uma vez, dizer-te pessoalmente. Queria informar-te olhos nos olhos, verde com verde. Mas continuo sem poder realizar esta minha aspiração.
Tenho assistido, ao longe, mas assim não tão longe como parece, às tuas confissões; Tenho lido muitas vezes “RAIVA ! RAIVA ! RAIVAAAAAAAAAAAAAA ! CARALHO !” ou “Foi tudo para o crlh ! / Estou farto desta vida ! Desta vida de merda ! / Adeus Portugal ! / Olá família infeliz ! / Quero desaparecer!”….
Não estejas farto da vida pois é o que de melhor tens. Se esta te abandonar, só nos remanescerá a saudade… A nós, porque a ti não sabemos… A vida nunca é merda: “Viver não custa, o que custa é saber viver”… Nunca digas adeus senão a quem morre: Portugal não acabou e está aqui, pacientemente, à tua espera…Não vale a pena desaparecer porque de ti nunca conseguirás fugir...
Tenho conhecido, também, grandes manifestações tuas de saudades… Nostalgias essas que só ampliarão com o passar do tempo. Todos nós sentimos saudades e temos que aprender a viver com elas… Quando a esta não te posso valer pois, infelizmente, ainda não descobri a cura;
A saudade sente-se sob formas, cores e cheiros distintos, é cantada pelo Fado… mas não cicatriza nunca. Fará sempre parte de ti e alguma cirurgia a conseguirá remover…
Este parece, pelo menos visto daqui, o teu dia-a-dia…
Demorei algum tempo para te escrever pois necessitavas de uma temporada de reflexão, ponderação sobre ti e sobre a tua existência.
Tudo o que dissesse na altura não seria ouvido… Agora que passou a tempestade…
Nestes assuntos não precisas de conselhos… Precisas de descobrir, encontrar a porta que te levará ao caminho, o caminho certo espero eu. Não te vou dar conselhos, apenas te vou dar a conhecer uma história que também me foi dada a conhecer numa dada altura da vida:

“No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebés.
O primeiro pergunta ao outro: - Acreditas na vida após o nascimento?
- Certamente que sim. Algo tem de haver após o nascimento!
-Talvez estejamos aqui, principalmente, porque nós precisamos de nos preparar para o que seremos mais tarde.
- Tolice, não há vida após o nascimento. E como realmente seria essa vida, se ela existisse? - Eu não sei exactamente, mas por certo haverá mais luz lá do que aqui..
- Talvez caminhemos com os nossos próprios pés e comamos com a boca.
- Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É totalmente ridículo! O cordão umbilical alimenta-nos; Digo somente uma coisa: a vida, após o nascimento, está excluída - o cordão umbilical é muito curto!
- Na verdade, certamente, há algo depois do nascimento. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.
- Mas nunca ninguém voltou de lá, para falar sobre isso. O parto apenas encerra a vida. E, afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.
- Bem, eu não sei exactamente como será depois do nascimento, mas com certeza veremos a mamã e ela cuidará de nós.
- Mamã? Acreditas na mamã? E onde ela supostamente está?
- Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e, através dela, nós vivemos. Sem ela tudo isto não existiria!- Eu não acredito. Eu nunca vi nenhuma mamã. Por isso, é claro que não existe mamã nenhuma!- Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, podemos ouvi-la a cantar; ou sentimos como ela afaga o nosso mundo...Eu penso que só depois de nascidos a nossa vida será mais "real", pois ela tomará nova dimensão. Porque aqui, onde estamos agora, apenas estamo-nos a preparar para essa outra vida...”

Pensa e vê se achas o caminho… ele está à tua frente, não olhes para o lado. Este é o meu particular alvitre.
O que acreditas como certo pode ser apenas um ponto de vista, e o ponto de vista, felizmente para a Humanidade, pode ser mudado vezes sem conta ao longo da nossa vida.
Por vezes, não há nada melhor no mundo que o facto de estarmos errados...
Um saudoso abraço.

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Pessoas especiais

Quero que saibas, quero que seja do teu conhecimento.
Pretendo que seja uma boa notícia.
Quero que seja da tua experiência.
Quero que descubras que existem pessoas, que andam pessoas que alastram e distribuem luz por onde passam… Seres que, por força da sua labutação, devoção e paixão trazem energia e força a quem precisa… A quem precisa de viver, cozinhar, passar a ferro….
Quero que saibas, quero que seja do teu conhecimento.
Pretendo que seja uma boa notícia.
Quero que seja da tua experiência.
Quero que descortines que existem pessoas que se esforçam para te tirarem da escuridão e iluminar o teu dia-a-dia….
Quero que saibas, quero que seja da tua ciência.
Pretendo que seja uma boa notícia.
Quero que seja parte da tua experiência.
Quero te apresentar os funcionários da EDP….

Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Prostitutas, plasma, cannabis, pavões e galos de luta??? A sério? Grande México!

Li, reli e voltei a ler. Tive grandes hesitações no que descobria…. Onde? Ah, no México…. Prostitutas, plasma, cannabis, pavões e galos de luta?? Não estariam os meus olhos, tal como a minha mente (por vezes) conspurcados e eu a ler “Prostitutas, plasma, cannabis, pavões e galos de luta” numa prisão em vez de “Prosternação [uma vez que quem está preso está infeliz (achava eu!!! – mas já vi que depende muito da cadeia…)], Plasmódio [em vez da massa de citoplasma com vários núcleos, da biologia, a “massa” dos muitos presos nas lotadas cadeias da América Latina], Camada [uma vez que imagino os presos como “Porções de coisas da “mesma espécie” estendidas à mesma altura sobre uma superfície”], Pavor [uma vez que, também, associo o grande temor ao factor de se estar enclausurado] e Galo-das-trevas [galo das trevas s. m. pl.
O candelabro de treze velas nos ofícios nocturnos da Semana Santa] num estabelecimento prisional do México?
Mas não… Segundo uma notícia da BBC Brasil (será congénere da BBC Portugal???), “uma inspecção surpresa a uma prisão no México descobriu dezanove prostitutas, cem televisões plasma, dois pacotes com cannabis, dois pavões e cerca de cem galos de luta, revelou a polícia mexicana nesta segunda-feira.”
Link
Se fosse preso (em Portugal) e tivesse acesso a esta notícia, faleceria com uma descomunal “dor-de-cotovelo”!
E estes “bens” essenciais, não esquecendo as duas “felizardAs”/privilegiadas(??) que “viviam” na ala masculina (como ocupariam estas senhoras o seu inacabável tempo????), estando preso! Agora imaginem o recheio do estádio do Chivas Guadalajara! Eu cá não consigo, mesmo admitindo a perversão ou degeneração mórbida (por vezes, não esquecer!) da minha mente.
Esta notícia (não sei porquê…), não me chocou! Mas fez-me pensar… Fez-me matutar muito e chegar a uma conclusão: Quero o meu país fora da Europa (territorial e politicamente), longe da Troika e dos interesses dos bancos, sem os seus brilhantes estadistas e acogulado à costa mexicana! [Assim manteríamos as nossas praias]. Matem (definitivamente em vez de a estarem sempre a macerar!) a Constituição da República Portuguesa e substituam-na pelo “preceito” do sistema prisional mexicano….
Nós, no México saberíamos viver e ser felizes! Mesmo sem estarmos presos….

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Vivirei num país do Hemisfério Sul??

Será esta a explicação? Será a incógnita, a explicação para o estado do país e da nossa sociedade? (até está escrito em espanhol e tudo!)

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

Carta aberta ao meu afilhado


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Queria dizer pessoalmente. Queria informar-te olhos nos olhos, verde com verde. Mas [não direi infelizmente pois cheio de infelicidades já eu estou atulhado] não poderei realizar esta minha aspiração.

Estás desterrado em nenhures, afastado das tuas raízes. O porquê não me importa pois ultrapassa o meu poder de decisão. Contra isso não posso fazer algo. É dos factos da vida que tenho de dar por exactos e incontestáveis. Por muito que queira não te posso valer nos assuntos terrenhos.

Cada vez mais tenho medo das palavras. Fujo a sete pés dos seus significados. Gostava, cada vez mais, do feito de me expressar pelo olhar e pelo toque. Pessoa disse que "É fácil trocar as palavras, Difícil é interpretar os silêncios!”. Mais uma vez recorrendo às doutas palavras deste meu aliado, não as vou trocar, vou escrevê-las para não ter que haver uma explicação do silêncio. Vou escrevê-las apenas para te informar. Para não subsistirem más acepções do silêncio, só para que saibas que não me esqueci de ti [nunca!].


Tiveste uma sucessão de desgraças na tua vida. Cedo começaste a dissaborear a vida. Mas esses assuntos não serão para ser enumerados numa carta aberta. E, aliás, assuntos esses que, cumplicemente, nos são sobejamente conhecidos.

Gostaria de te ajudar de outras maneiras, mas não posso. De pouco te posso valer neste momento. Não posso porque a cobardia de quem és legalmente depende iria usar todos os meios para me prejudicar. Usaram-me em proveito próprio, para se atacarem e taparem com a merda que cada um escolheu para viver. “Deus existe e é notado nas mais pequenas coisas”, escreveu alguém que na minha cabeça se encontra incógnito. Da moral desta triste história resultaram duas percepções. “Deus” manifestou-se de duas maneiras distintas, positiva e uma negativamente; A pronúncia positiva é que conheci a verdade sobre duas pessoas que tinha por amigas (mas afinal só durou enquanto me conseguiram usar). Fernando Pessoa disse que existem outros tipos de morte e precisamos de morrer todos os dias. Os teus pais foram, para mim, mais uma morte. Morte que era necessária em prol da verdade e, deste modo, que não leva a que lhes guarde qualquer rancor. Mas a única coisa que lhes agradeço, neste momento, foi concederem-me o privilégio de ter, na minha vida, um ser maravilhoso, um afilhado que usa o teu nome. Sem qualquer rodeio, e para que não restem dúvidas, terem permitido o prazer grandíloquo de poder comparticipar a vida contigo, com a tua amizade.

O lugar ocupado por eles os dois, na minha vida, serão, certamente, ocupados por outros que o mereçam. Disponibilizo esse espaço para ti, exclusivamente, caso o queiras!

Espero que os filhos, um dia, não tenham de pagar pelos pecados dos pais. E, sendo uma das infelicidades que ainda não me atulhou, lamentavelmente os filhos continuam, nos dias que correm, a saldar (muito caro, por vezes) os tropeções dos pais.

O aspecto negativo foi a perda do local onde sabia que te podia encontrar, onde te podia visitar. Mas espero que, muito brevemente, este facto não passe de mais uma das minhas mortes.

Mas tudo isto é conversa para acabar quando fores mais maduro.

De tudo, diz Pessoa, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre a começar, a de que precisamos continuar e a de que seremos interrompidos antes de terminar e que, portanto, devemos: Fazer da interrupção um caminho novo; Da queda um passo de dança; Do medo, uma escada; Do sonho, uma ponte; Da procura, um encontro.

Em resumo, tomes as opções que tomares, seja qual for o rumo a que apontares o teu futuro, mesmo que as palavras, o olhar e o toque fiquem proibidos entre nós, terás sempre um povoado no meu coração e um lugar no meu espírito. Terás sempre o meu apoio para o teu caminho, dança, escada ou ponte que possam surgir na tua vida que espero longa, saudável e satisfeita.

Do teu para sempre,

Padrinho com um grande abraço

Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

O meu será meu?

Será o sentimento de posse um valido na nossa consciência? Eu cá, e falando pela que melhor conheço – a minha -, atrever-me-ia a afirmar que o sentimento de posse é a sensibilidade mais forte do meu conhecimento.
Não a posse física de outra pessoa – será escravidão – mas a posse e respeito dos sentimentos que nos une a essa pessoa; Não a posse da liberdade de outra pessoa – que será só daquela – mas a sintonia de ambas as “independências”; A posse, neste caso, será o privilégio de ser presenteado com o sentimento (seja ele qual for) de outrem. Logo se é presente é meu e de mais ninguém!
Os sentimentos da outra pessoa, principalmente os que me tocam directamente, gosto de os considerar meus e, de um modo intransigente, exclusivos à minha consciência.
Uma coisa que me faz espécie é, nos casos onde existem laços insignificantes entre as pessoas se usem palavras despropositadas a estas situações.
O exemplo modelar desta situação é o uso da palavra “minha” que, como se não bastasse só por si, surge amplamente ligada a “querida”.
“Minha querida” porquê se não o é?
“Minha querida amiga” já é uma expressão a ser louvada. Seria se não vivêssemos uma amizade que se estreita ao Facebook. E neste caso não sei se será uma “amizade” ou uma “montra de egos, de troféus” de seres liliputianos que apenas desejam o que é dos outros que, certamente, não é [e esperemos que nunca seja]do seu usufruto.
Qual a necessidade de apelar ao ego de uma pessoa, com estas falsas expressões, se, certamente, a pessoa visada já escolheu e permitiu quem possa condescender ao seu intimo?
Beijinhos, beijocas e derivados é um outro caso modelar desta estupidez generalizada: “beijos” é, geralmente, aceitável [e no plural pois são vulgarmente dados aos pares sendo que, no singular, será dado nos lábios]; “beijinhos” dão-se a uma criança ou a um animal [geralmente quem não tenha (ainda) um intelecto muito desenvolvido] e “beijocas” a uma pessoa que partilhe a nossa consciência.
Acho que cada vez mais o respeito, pelo que é dos outros e não nosso, se desvanece nas nossas relações pessoais.
Porquê este atentado constante ao que não é nosso?
Como sempre ouvi que “Deus existe nos pormenores” estarei eu a “over react”?

Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Honestidade

Mais uma vez (e são inúmeras, incontáveis) continuo à toa. Continuo sem perceber se a vida é exigente ou se sou eu que a torno impertinente. Continuo na retumba dos meus pensamentos… Ou será que são os meus pensamentos que ribombam a minha vida?
Continuo à procura, persisto nestas minhas palavras. Valerá a pena? Segundo o falecido “valerá sempre a pena quando a alma não é pequena”. Tinha razão ou não? Não importará pois também ele morreu.
Se me pedissem para me definir como pessoa seria incapaz porque, primeiro, não devo caber nesse grupo e, segundo, por muito que arriscasse acho que não alcançaria nunca uma definição. Mas uma coisa que tenho certa é o de querer o parco. Pouco mas que afinal não o será… Acho que quero o irrealizável.
Mas como, e mais uma inúmera vez, não consigo aclarar a minha existência ao mundo, vou mudar de astúcia, vou encarnar uma personagem, vou contar a minha vida como se de uma fábula se tratasse. A vida não que já conta com mais de três décadas; Vou contar o que me chateia, vou enumerar o que acho responsável por esta minha demência; Vou encarnar o João (um qualquer que não um dos muitos que conheço ou conheci); Um João que não existe, um João parecido comigo (talvez logo daqui não se veja que não existe); vou… vou-me calar e passar à história:
A Lua amputava os cantos mais sombrios da praceta. A Lua, ao contrário do seu irmão Sol, mostrava as duas verdades da praceta do João. O Sol reconfortante e saudável, pelo menos aparentemente, apenas mostra um lado da realidade, da praceta. Apenas realça o visível.
A Lua, com a sua alma feminina, e ao contrário do seu irmão, mostra a ambivalência da praceta do João. Mostra o seu lado escuro e o seu lado brilhante. Mostra a realidade da praceta do João.
Daqui a história se passar de noite, se passar pelas 21:15m do dia 09 de Fevereiro do ano 2010. Neste dia e a esta hora para a minha história se realizar; para poder ter dois lados: o sombrio e o da luz. Para ter o duplo significado do se pretende e do que se escreverá nesta história.
Para apelar ao lado feminino, ao lado que me marcou, ao meu lado morto. À minha mãe ou avó que me criaram, educaram e que se preocuparam. Ao único lado que me proporcionou o amor incondicional, ao amor que não obrigava regresso. O amor que é raro, que está em extinção.
A praceta encontrava-se deserta, desprovida de vida. O prédio, amarelo e branco na sua fachada, encontrava-se de janelas ocultas, ocultas e destituídas de existência. O silêncio da Lua entusiasmava ao sono, à aparente morte. As árvores, inertes, projectavam as suas trevas, a sua inexistência, na calçada. A calçada acarinhava o lixo, também ele finado, e abafava o andar de quem já se deitou, de quem espera a ressurreição do amanhã, do sol. Os cães não ladravam e, recolhidos do frio, supunham o descanso. Estava frio. Um frio típico de inverno, um frio que se sente mas que não se vê.
João, sozinho, como sempre, era o único que vivia, que respirava. Os seus pensamentos retumbavam, procuravam o motivo. Procuravam a verbalização dos seus sentimentos. Ribombavam, em vão, à procura do sexo dos anjos.
Há uma luz que se acende na fachada em frente à sua. Inocentemente? Não! Distraiu os pensamentos do João. Arruinou a sua residência, alterou completamente o seu contexto: A praceta voltou, tal como o seu prédio, à vida. A Lua perdeu o seu silêncio, as árvores deixaram de se projectar, o lixo mostrou-se iluminado e os cães ladraram. Continua um frio, um frio que se sente.
Os pensamentos do João, desenraizados do encanto inicial, continuam à procura do sexo dos anjos. Procuram martirizar o João. Este alento da janela, desenraíza os pensamentos do João. Permite a sua verbalização ou a verbalização das suas dúvidas. Será o que peço muito? Pensa o João. Será desumano o que aspiro? Acho que não assegura-se o João. Ou serão os meus pensamentos simples mas inaudíveis? Consome-se o João.
João sente e crê que apenas precisa de lealdade. Honestidade em sua casa, na sua vida. Do mundo João apenas espera paz. Do seu mundo João aspira à honradez. Será muito? Será o impossível espelhado nos pensamentos de João?
A luz apaga-se. A praceta volta ao vazio. O prédio eclipsa as janelas. O silêncio da Lua encoraja ao sono. As árvores, inertes, meditam a sua inexistência. A calçada aguarda, de novo, a ressurreição. Os cães calam-se e, recolhidos do frio, retomam o descanso. Estava frio. Um frio típico de inverno: sente-se mas não se vê.
Os pensamentos do João não ribombam, mantêm-se. João precisa de honestidade.
João precisa de chorar. Precisa muito. Mas precisa, também, de quem lhe enxugue as lágrimas. Valerá a pena chorar se as lágrimas, após percorrer todo o seu semblante, morram ingloriamente, estateladas no chão? Valerá a pena chorar se não existir mão alheia que as ampare? Que as provenha de vida?
Mas João só consegue chorar sozinho. E João chora muito, compulsivamente e horas a fio. Porquê? Para nada… A mão ou a honestidade não se encontram perto do João. Estará João sozinho? Porque ribomba o seu pensamento? Porque se mantém absorto na sua teimosia? Para que quer uma mão se tem as suas duas?
João, tal como a Lua, tem presente a ambiguidade da vida: a escuridão e a luz. João é consciente que as suas mãos precisam de uma outra para rodear, abraçar, para a tornar sua. Se unir as suas duas mãos, João, nunca conseguirá preencher o vazio que se instala entre estas. Se envolver uma terceira mão, João já não terá que se preocupar com o vazio, com o oco. Envolvendo uma outra mão Conseguirá João aquietar os seus pensamentos?
Três mãos unidas preencherão o vazio e o João, deixando de sentir o frio, poderá adormecer os seus sentimentos. O vazio preencheu-se com amor, honestidade. Será pedir muito? Apenas uma mão… João já não pede mais.
Será autobiografica esta história? Esperemos que não… Para o meu bem.

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

A grande solidão que de ti espero. / A voz com que te chamo é o desencanto /E o esperma que te dou, o desespero. (Ary dos Santos, 'Liturgia do Sangue'

Não é de todo parte de mim reconhecer-me em algum poema. As linhas da poesia, na minha crença, é como o fado, é preciso espírito para as apreender. Espírito é algo que me é estranho, algo do qual nasci desprovido. Acredito piamente nesta privação pois desde sempre ma apontaram. E a pior imbecilidade de sempre foi a de autorizar e admitir as opiniões dos outros. Eu sou como sou, fruto de quê neste momento não interessa, e, como tal, tenho (achava eu) direito à respiração.
Mais uma vez embusteado pela vida, pontapeado pelo próximo… A minha revolta, leia-se nestas linhas, não é com o próximo, é contra toda a fé que depositei neste. È, deste modo, contra mim, contra a minha permeabilidade ao que me rodeia.
Tenho 36 anos e, como tal, não deverá sequer me lembrar da permeabilidade humana. Já sou maturo para saber que, tal como Ary dos Santos, disse dos outros só se pode esperar a solidão e, de nós, apenas o desespero.
Embriagado pela morte tomei a ilusão como certa e, nas poucas fracções de lucidez, sinto a solidão. Embriagado creio que tenho uma família e amigos e sóbrio apenas o que resta de mim, o que ainda não conseguiram matar (ainda).
Desacompanhado nada vale a pena, inclusive respirar, comer e, principalmente, viver. Sóbrio é a pura realidade: mesmo que te rodeies com o mundo estás só e fodido.
Para quê a abstemia? Mais vale o engano. É mais fácil e apetecível.
Isto tudo porque, no dia de hoje, uma pretensa amiga, não de hoje mas de umas longínquas décadas, se lembrou de me classificar como “sempre inoportuno”. A minha embriaguez, já em processo de cura pela minha mulher, debilitada fortemente, desapareceu na totalidade. E o que surge quando a embriaguez se vai? A sobriedade…. Sóbrio estás só e fodido. E assim fodido fiquei. Uma pessoa (a suposta amiga) que sempre se questionou o porquê de eu ser tão critico e sempre a ter poupado. ..
Escrevo estas linhas para ficar, se dependesse de mim para a posteridade, para culpar a embriaguez… se não fosse a embriaguez já há muito que teria notado que, tal como os outros todos, amiga é que ela não é… e nunca a teria poupado.
Nesta conjuntura, estou disposto a tudo. A tudo menos à morte… E, se esta chegar, a única curiosidade que tenho é saber, para além de mim, quem mais a vai sentir. Será mais um pontapé? Acho que não, acho que nesta questão não sou parvo e que é a única certeza: Acho que nenhum dos vivos. Talvez o meu confessor, o meu “blog”…

Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Três realidades distintas num conflito

Adoro discussões. Amo, honro, venero, admiro, aprecio, idolatro e era capaz de apelar a mais uns quantos sinónimos para qualificar a minha relação com a controvérsia que, sendo um sinónimo de discussão, também, por analogia, a amo, honro, venero, admiro, aprecio, idolatro.
É com esta paixão que vivo uma discussão. É uma paixão apaixonada (adoro redundâncias!) o que se consegue apreender, retirar de uma boa discussão. Aqui importa ressalvar a discussão que temos, por exemplo com atrasadas mentais que se sentam à nossa frente nos locais de trabalho, com as que insistem em buzinar nas rotundas tal como se esta fosse sua propriedade, a sua vagina e onde só entra quem elas querem ou os parvalhões que, gesticulando fortemente, nos mandam para o “Órgão sexual masculino” tal como quem dá os bons dias. Não me estou a referir a estas discussões que, são as únicas que não amo, não honro, não venero, não admiro, não aprecio e, especialmente, não idolatro. Mas que também as vivo e alimento. Às vezes chego a pensar se o dito órgão será um local aprazível ou apetecível mas, de certo, terá um bom paladar pois anda sempre na boca da multidão. Por tudo isto, não se pode tirar a razão a Freud quando este considera que o sexo é universal exercendo um total controlo sobre o cosmos e sempre visível, até na condução.
Já estou a desviar do caminho pretendido, uma vez que o que pretendia expor, inicialmente, não teria conotação sexual mas, fatalmente, acabou por a ter. Mais uma prova que uma boa discussão, neste caso entre mim e o Microsoft Word, tem como consequência uma mudança de conceitos. Daí amar, honrar, venerar, admirar e apreciá-las!
Até agora nunca tinha associado “rotunda” com “vagina” e “Órgão sexual masculino”. Apenas tinha concluído que conduzir é como participar numa orgia, numa foda comunitária (desculpem o vernáculo mas um sinonimo, neste caso, não ficaria bem). Desta discussão consegui, tendo a conclusão já incutida no subconsciente, desenrolar a teoria até à sua génese… ou talvez não. Quem chegou primeiro à rotunda? O Órgão sexual feminino ou o órgão sexual masculino? Será a rotunda um órgão masculino ou feminino? E é melhor parar por aqui senão acabo a defender ou atacar os direitos homossexuais. Vejamos: se se considerar a rotunda como masculina e o “Órgão sexual masculino” como o primeiro a chegar já temos dois objectos do mesmo sexo e, havendo dois objectos de igual sexo, já é uma questão melindrosa. Susceptível ao ponto de não me a apetecer abordar ou a discutir. Não me apetece e não vou, deixando esta controvérsia na mão de quem daí tirar proveito.
Mas como tudo tem uma excepção, em tudo se procura “uma tentativa de legitimação da inobservância, assente numa lógica rival de valores” (li algures, não interroguem onde, e achei graciosa a expressão) e porque, segundo um estimado professor de historiografia sobre a Idade Média afirmou, o mundo se vê, se compreende sempre a três dimensões termino com um apelo: Nunca olvidar que em todas as discussões, as relativas ao sexo ou as não implicitamente sexuais, têm três posições: A minha, a do outro interveniente e a correcta!

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Voltei!!!


Cinco meses, cinco meses foi quanto perseverou o meu afastamento… Mas, abertamente, acho que ninguém deu pela minha falta… lol. Deram?
Com a proposta de não me ausentar por outros mais cinco meses e desculpando-me da falta de inspiração para escrever muito no dia de hoje, aqui fica uma ilustração dos meus últimos cinco meses em que eu, representado pelo cão, fui absorvido pela faculdade (nádega esquerda) e pelo trabalho (nádega direita)… Até breve (espero!)